Fraude digital como guerra assimétrica

A fraude digital opera por meio de redes rápidas e adaptáveis. Entenda por que seu enfrentamento exige inteligência integrada e uma atuação coordenada.

Fraude digital e guerra assimétrica

                              
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Fraude como guerra assimétrica: lições do Estreito de Ormuz

Por Rafael Costa Abreu, diretor de fraude e identidade LATAM, LexisNexis® Risk Solutions

Durante minha formação no Exército, grande parte do que estudávamos partia de um conceito clássico: a guerra simétrica. Dois exércitos, estruturas relativamente equivalentes, linhas bem definidas, campos de batalha claros. Havia ordem, previsibilidade e, sobretudo, uma lógica de confronto direto. 

Com o tempo, esse modelo começou a se tornar cada vez menos representativo da realidade. A mudança para o que é conhecido como guerra assimétrica alterou fundamentalmente esse paradigma. O adversário deixou de ser uma força equivalente e tornou-se difuso, descentralizado e altamente adaptável. Em vez de confrontar diretamente, ele explora vulnerabilidades, evita pontos fortes e opera onde o sistema é mais frágil. 
Poucos exemplos ilustram isso melhor do que o Estreito de Ormuz. Responsável por uma parcela significativa do fluxo global de petróleo, o estreito é um dos pontos mais estratégicos do planeta. Sua vulnerabilidade reside não apenas em sua importância, mas também em sua geografia e no tipo de ameaça que enfrenta. Pequenas embarcações, drones, minas e ações indiretas têm o potencial de gerar impactos desproporcionais em toda a economia global. 

A lição estratégica do Estreito de Ormuz não reside na força, mas sim na influência. Ações indiretas que exploram gargalos, dependências e incertezas podem desencadear consequências muito maiores do que a escala do ato inicial. A ruptura não exige confronto, apenas a compreensão de onde o sistema está mais vulnerável. Essa lógica aplica-se cada vez mais não apenas às rotas comerciais globais, mas também aos ecossistemas digitais.  

A importância deste exemplo vai além da geopolítica. Ele demonstra como os sistemas modernos raramente são interrompidos de forma direta, mas sim por meio de pressão aplicada em seus pontos mais sensíveis. À medida que o poder, o comércio e a coordenação migram para redes digitais interconectadas, a mesma dinâmica de gargalos e alavancagem emerge de formas menos visíveis. Os sistemas financeiros são uma das expressões mais claras dessa mudança.

Fraude: de evento a sistema 

O cenário atual de fraude deixou de ser episódico. Hoje, ele opera em escala. Segundo dados do Banco Central do Brasil, o Pix atingiu 63,8 bilhões de transações em 2024, alta de 52% em relação a 2023. No mesmo ritmo em que o sistema avançou, cresceram também as fraudes, chegando a uma média de 390 mil ocorrências por mês.  

Mas o principal problema não é apenas o aumento do volume de ataques. É a mudança estrutural do fenômeno. 

O Brasil já possui 2,6 milhões de CPFs associados a contas laranja, utilizadas para ocultar, dispersar e movimentar recursos ilícitos. Essas contas deixaram de ser uma exceção operacional e passaram a funcionar como infraestrutura permanente do crime financeiro digital. Isso altera completamente a natureza da ameaça. Não estamos mais diante de fraudes isoladas ou oportunistas. Estamos diante de estruturas organizadas, distribuídas e altamente adaptáveis.

O surgimento das redes “Mula 2.0” 

A fraude moderna opera em rede. Após o golpe inicial, frequentemente baseado em engenharia social, os fundos entram em uma conta principal e são rapidamente dispersados. Os valores são divididos em dezenas de transferências, distribuídos entre várias instituições e, em seguida, convertidos em criptomoedas, sacados ou enviados para o exterior. Todo esse processo pode acontecer em menos de três minutos. 

Velocidade, fragmentação e interoperabilidade criam um ambiente no qual: 

  • o rastreamento se torna extremamente complexo 
  • a resposta humana deixa de acompanhar o ritmo do ataque 
  • o dinheiro desaparece antes mesmo de ser detectado 
Essa dinâmica se intensifica em uma economia cada vez mais interconectada. Pagamentos instantâneos, criptoativos, finanças descentralizadas e plataformas digitais globais proporcionam uma eficiência sem precedentes mas, simultaneamente, expandem a superfície de atuação. 

O Brasil, com o Pix, é um dos líderes globais, mas não está sozinho. Índia (UPI), Singapura (PayNow) e Reino Unido (Faster Payments) seguem a mesma direção: velocidade, interoperabilidade e escala.  

O desafio é global. Quanto mais rápido o sistema financeiro se torna, menor é a janela disponível para identificar, interpretar e bloquear comportamentos suspeitos. Essa realidade favorece justamente o atacante assimétrico — rápido, distribuído e adaptável.

A resposta exige inteligência sistêmica

Ao enfrentar um adversário conectado em rede, a resposta não pode ser linear. Estruturas adaptativas não podem ser combatidas com controles isolados. Assim como na guerra assimétrica, a defesa deve evoluir para uma abordagem sistêmica: 
  • inteligência para antecipar padrões de comportamento  
  • defesa em múltiplas camadas ao longo da jornada do usuário 
  • coordenação entre instituições, funções e mercados
  • capacidade de decisão compatível com a velocidade do ataque.  

O Banco Central já reconhece essa mudança. Iniciativas como o MED 2.0, com rastreamento em cascata de até cinco níveis, e o compartilhamento obrigatório de dados entre instituições (Resolução Conjunta nº 6), caminham justamente nessa direção: transformar o sistema financeiro em um mecanismo de inteligência coletiva.

O novo campo de batalha 

Se o Estreito de Ormuz nos ensina algo é que o controle de pontos críticos, sejam físicos ou digitais, determina a estabilidade de sistemas inteiros. No mundo digital, esses pontos incluem: 

  • onboarding  
  • autenticação  
  • pagamentos 
  • recuperação de contas  

Todos esses pontos estão sob ataque constante. A questão não é mais se eles serão explorados, mas se estamos preparados para responder como um sistema coordenado ou se podemos continuar a tratar a fraude como uma série de eventos isolados. No fim, a fraude deixou de ser uma questão operacional. Tornou-se um conflito estratégico. 

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